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17.11.2020

DICAS DE HOMILIA - Solenidade de Cristo Rei do Universo

O Reino de Deus - O Cuidado do Pastor – Os menores dos irmãos

 

(Ez 34,11-12.15-17 / Sl 22 / 1Cor 15,20-26.28 / Mt 25,31-46)

 

O Reino de Deus -  O Cuidado do Pastor – Os menores dos irmãos

 

A Liturgia da Palavra da Solenidade de Cristo Rei do Universo traz à tona o tema do Reino de Deus, algo presente no Primeiro Testamento e revelado, no Segundo Testamento, na pessoa, gestos e atitudes de Jesus, o Filho de Deus. Na Primeira Leitura apresenta a figura do Pastor que é muito conhecida em todo o universo bíblico e evoca o cuidado de Deus para com os seus filhos e filhas. Já a cena do juízo final, encontrada no texto do Evangelho de Mateus, é significativa, pois, revela, nas palavras de Jesus, com quem ele se identifica, isto é, que os seus irmãos menores são os pobres, os marginalizados e excluídos. Na celebração desta Solenidade, a Igreja do Brasil recorda e celebra a vocação de todos os leigos e leigas, irmãos e irmãs presentes em todas as Comunidades Eclesiais de Base, espaço no qual assumem, com alegria a sua vocação batismal.

 

No Primeiro Testamento, o Reino de Deus não segue os critérios dos demais povos, que construíam os seus reinos sob as bases da dominação e exclusão dos pequenos e pobres. No coração da experiência de fé de Israel, o Reinado de Deus era marcado pelo cuidado divino e pelo seu auxílio sempre presentes, principalmente, junto aos que mais precisavam. Entre estes estão as viúvas, os estrangeiros e os órfãos que sempre foram os preferidos de Deus, alvos do seu amor e proteção, do seu cuidado e misericórdia. Desse modo, a marca fundamental do Reino de Deus é a sua Aliança, isto é, o seu compromisso de fidelidade junto ao povo que Ele mesmo escolheu por sua herança. Por isso, quando Israel constituiu para si reis, o crivo da balança que indicava se estes eram fiéis ao chamado que receberam ou não era o modo de agir de Deus, o verdadeiro Rei de Israel.  O Senhor é Rei pois faz justiça ao oprimido, levanta os caídos, socorre os indigentes e liberta os cativos, estende a sua misericórdia sobre todos e usa de compaixão para com os que erram.

 

No Segundo Testamento, o Reino de Deus, segundo as palavras de Jesus, já estava presente junto ao povo, por meio de suas palavras, gestos e ações. Ele revelou a todos o Reino de amor e justiça do Pai, demonstrando uma bondade infinita e uma compaixão sem igual por todos os sofredores. Ele continua anunciando o Reino para os pequenos e pobres, para os sofridos e marginalizados, os perseguidos por causa da justiça, enfim para os preferidos de Deus. Desse modo, o próprio Jesus é o grande sinal do Reino de Deus, que liberta e cura, que salva e garante a vida plena a todos, visto que o Reino, por ele pregado, é de paz e bondade, de justiça e paz. Neste caso, todas as Comunidades Eclesiais de Base, todos os fiéis católicos são colocados diante de um claro projeto de Reino, que difere dos valores da sociedade excludente que tem produzido um número cada vez maior de empobrecidos. Sendo assim, celebrar a solenidade de Cristo Rei do Universo significa acolher o projeto do Reino que ele mesmo propôs, assumir em toda a sua plenitude as escolhas do Filho de Deus.

 

Nesta proposta do Reino de Deus, a Primeira Leitura traz uma imagem muito significativa para todo o universo bíblico, que é a do Pastor. O texto do profeta Ezequiel se refere ao período em que o povo de Israel estava no exílio da Babilônia, marcado pela distância da terra prometida e pelo sofrimento de não poder prestar culto a Deus. O texto faz uma grande acusação contra aqueles que deveriam ter cuidado das ovelhas, mas ao invés disso, preocupavam-se consigo mesmos, deixando-as à mercê da própria sorte. O profeta toma as dores do povo e acusa, em nome de Deus, todos os que, por terem sido colocados à frente do povo, deveriam assumir a sua responsabilidade de cuidar do rebanho do Senhor. Todavia, apesar de todo o sofrimento, Deus não deixa o seu rebanho abandonado e desamparado, mas vem ao seu socorro, pois reconhece as suas ovelhas e conhece as suas dores e sofrimentos. O fato do autor utilizar os pronomes possessivos, ao descrever o povo como ovelhas do rebanho do Senhor, denota o cuidado atento de Deus e, mais ainda, a sua fidelidade à sua Aliança. Deus é o proprietário do rebanho, é Ele o primeiro interessado no seu bem estar, por isso, segundo o profeta, Ele mesmo irá tomar o cuidado necessário para com todas a suas ovelhas. O cuidado de Deus descrito vai aos pequenos detalhes, desde a busca da que se perdeu, o encontro com a que se extraviou, o amparo para com a ovelha caída e machucada até o zelo para com a que está forte para que cresça e se fortaleça ainda mais. Desse modo é manifestado o sinal do Reino de Deus, que se traduz no interesse do Senhor junto aos seus filhos e filhas, principalmente para com os que mais precisam de cuidado e auxílio. Ao mesmo tempo que revela a responsabilidade própria da experiência de fé de cada fiel cristão, que é, por Deus colocado, como sentinela junto aos pequenos e pobres, ovelhas do rebanho do Senhor. Sendo assim, a leitura do profeta não só revela o cuidado de Deus sempre presente na história de seu povo, ela também convoca a todos os cristãos, chamados a serem discípulos de Cristo a aprenderem com o Senhor a serem zelosos e cuidadosos uns para com os outros. O cuidado de Deus que cada um recebe, não é somente um auxílio na necessidade, mas, uma graça que deve educar a todos para o compromisso de ser sinal do amor misericordioso de Deus junto aos que mais precisam

 

O texto do Evangelho da Solenidade de Cristo Rei traz uma cena muito conhecida, na qual a humanidade inteira se coloca diante do Filho do Homem. O ponto máximo do texto se dá quando o Filho do Homem expressa o seu juízo, isto é, revela aos dois grupos que estão diante dele, qual dos dois se identificou com os menores de seus irmãos. Nessa identificação Ele revela que aqueles que aos pequenos se dirigiram, foi a Ele mesmo que se dirigiram, isto é, saíram ao encontro dos pequenos e o encontraram neles. Tal identificação deixa a todos atônitos, pois não esperavam que o Rei juiz se identificasse com os sofredores e pobres da terra. Isso significa que a ação dos que se dirigiram aos pobres e pequenos foi um gesto de amor claro e direto a Deus, isto é, ao encontrar um irmão caído por terra, nele encontraram o próprio Senhor. Tal identificação não era uma novidade em Israel, visto que o Servo Sofredor de Isaías já era descrito, na sua mais clara imagem, como identificado aos pequenos e pobres, aos sofredores e excluídos. Sendo assim, a identificação do Filho do Homem, Jesus Cristo, com os pobres da terra não é algo novo, mas faz parte da experiência de fé dos cristãos, desde o início do Cristianismo. Quem é o Rei do Universo se não o Crucificado, aquele que tomou sobre si as dores do mundo e as levou em seus ombros carregando a cruz. No alto da cruz ele devolve ao Pai a humanidade inteira que assumiu plenamente até as últimas consequências, com a entrega de sua própria vida. Desse modo, todos as vezes que um cristão, chamado a ser discípulo missionário se dirige a um dos menores dessa terra, encontra-se com o Rei do Universo. No olhar e nas dores dos pobres, sofridos, marginalizados, doentes e prisioneiros está o olhar de Cristo, pobre e sofredor à espera de todos os que a Ele aderiram por meio da Fé. Sendo assim, o amor concreto e solidário será o crivo da balança no julgamento divino, um amor que nasce na experiência de Fé daqueles que foram acolhidos como ovelhas no rebanho do Senhor e, por isso, são chamados a zelarem uns pelos outros. Ao celebrar a Solenidade de Cristo Rei todos são convocados a abraçarem o mesmo compromisso do Mestre e Senhor, isto é, anunciarem com a palavra e com a vida o Reino de Deus de justiça, fraternidade e solidariedade.

 

Que a Liturgia da Palavra da Solenidade de Cristo Rei do Universo seja um momento fecundo para celebrar o compromisso de cada um com o Reino de Deus. De modo que, recebendo do Senhor o seu cuidado de Pastor todos se sintam convocados a serem um sinal claro do amor que gratuitamente receberam. A fim de que, o amor seja a marca principal na vida dos fiéis católicos, chamados a serem discípulos missionários, sinais do amor de Deus juntos aos que mais precisam. Que o Cristo Rei do Universo caminhe com a sua Igreja, fazendo dela um sinal claro de seu Amor e sua Aliança  com os empobrecidos dessa terra.

 

Pe. Andherson Franklin Lustoza de Souza

 

 

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