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15.09.2020

DICAS DE HOMILIA - 25º Domingo do Tempo Comum

A Lógica de Deus - Viver à altura do Evangelho - Os Caminhos do Senhor

 

(Is 55,6-9 / Sl 144 / Fl 1,20c-24.27a / Mt 20,1-16a)

 

A Lógica de Deus - Viver à altura do Evangelho - Os Caminhos do Senhor

 

A Liturgia da Palavra desse Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum apresenta, de forma clara, a necessidade que tem o cristão de aprender a conhecer os caminhos de Deus e fazer deles os seus próprios caminhos, vivendo como verdadeiros discípulos missionários de Cristo. Algo que é apresentado no Evangelho, que retrata a lógica de Deus, baseada na sua liberdade e amor, diversa da lógica dominante que se baseia na justiça distributiva. Para compreender tal proposta divina é necessário assumir como caminho de vida, o que o apóstolo Paulo fala de si mesmo ao afirmar: viver à altura do Evangelho (Fl 1,27).

        

O texto da Primeira Leitura relata o retorno dos filhos de Israel do Exílio e de como o profeta percebe que deveria se dar a reconstrução de Israel. Em suas palavras fica claro que os exilados deveriam buscar os caminhos do Senhor, abandonando os próprios caminhos e estradas, a fim de abraçarem a lógica de Deus: "Estão os meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos". Tal afirmação deve ser compreendida na proposta de uma nova lógica baseada nos critérios divinos e não naqueles humanos, que nascem no horizonte limitado da humanidade.

        

No caso de Israel, que deveria reconstruir o seu país, significava dar crédito à lógica divina, isto é, abrir-se ao novo de Deus. De fato, depois da tragédia do Exílio, Israel deveria ter sido capaz de compreender que os caminhos do Senhor são diversos daqueles dos homens. De modo a poder retornar à terra prometida imbuídos de um novo espírito e do desejo de comunhão com os outros povos. Realizando assim a sua vocação de ser, para todas as nações, uma luz da graça divina, como proposto pelo próprio Senhor (Is 49,6). Desse modo, procurar os caminhos do Senhor é como um refrão que se encontra em toda a Sagrada Escritura, expressão do desejo de Deus para todo aquele que o deseja seguir e realizar a sua vontade. Sendo assim, o discípulo de Cristo, abraça o caminho do Senhor como seu, fazendo de sua estrada o percurso para a vida inteira, à exemplo do que propõe o profeta Isaías na Primeira Leitura.

        

O Evangelho desse domingo traz uma parábola contada por Jesus aos seus discípulos, ela é introduzida pelo texto anterior que não aparece no texto litúrgico. Nele, Pedro em nome de todos os discípulos, se dirige a Jesus e afirma ter deixado tudo para segui-Lo, o que provoca no Senhor a resposta clara: "Muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros". Tal resposta pode parecer sem sentido no contexto da pergunta, mas, ela se refere a uma provável difícil situação encontrada na comunidade de Mateus, isto é: dois grupos de cristãos que se disputavam o primado do chamado de Jesus. Não é difícil reconhecer que um grupo era formado por cristãos vindos do judaísmo, que foram chamados ao seguimento primeiro, como filhos mais velhos da comunidade cristã, nascidos na Aliança de Deus com os seus e em seu amor de Pai. Um grupo não somente numeroso, mas, também forte e influente na comunidade, unido pelas tradições que traziam de sua experiência no judaísmo. O segundo grupo, não menos amado por Deus, era composto por aqueles que não eram reconhecidos pelo primeiro grupo, isto é: pecadores públicos, prostitutas, publicanos, ou seja, pagãos  que não pertenciam ao povo eleito.     

 

Nesse difícil convívio dentro da comunidade, na qual se encontravam aqueles que se sentiam filhos privilegiados e os que vieram depois como de segunda classe, nasceram alguns conflitos. Neste caso, a parábola vem revelar a lógica de Deus, baseada em seu amor gratuito e livre, fonte de bênçãos para uns e para os outros. O texto da parábola é claro e deixa margem para a presença de uma lógica distributiva, que é a dominante, segundo a qual, os que trabalharam mais, deveriam receber mais que os outros que trabalharam menos. De fato, seguindo a maneira de pensar vigente, aqueles que enfrentaram o calor do dia inteiro, trabalharam desde a manhã até o final do dia, deveriam, em tese receber mais do que os que pouco, ou até mesmo nada fizeram. Aqueles que foram contratados no final do dia, provavelmente, seguindo a parábola, nem sequer conseguiram chegar ao local de trabalho, visto que, o dia já findava. Desse modo, a parábola coloca em questão a lógica distributiva, segundo a qual, os que estiveram o dia inteiro no trabalho árduo, esperavam receber muito mais do que os que pouco ou nada fizeram. O espanto é geral, muito provavelmente, até por parte dos que receberam muito, sem terem trabalhado tanto. Todavia, ao pagar o mesmo para todos o patrão revela a lógica de Deus, que é baseada em seu amor livre e gratuito, cheio de compaixão e largo no perdão e na acolhida.

        

O amor vence toda a meritocracia, ou seja, é oferecido a todos em igual medida e sem reservas, pois, diante de Deus que escolheu e salvou a todos, não existem grandes ou pequenos, fortes ou frágeis, primeiros ou últimos. A escolha de Deus e o seu chamado são frutos de seu amor livre e gratuito, que extrapolam a lógica do mundo, marcado pela exclusão e pela escolha de uns em relação aos outros. Escolher viver segundo a lógica de Deus, significa abolir as diferenças e os primeiros lugares, perceber que, por vezes, as ações cotidianas são marcadas por valores que se afastam da gratuidade e da liberdade. Todos são acolhidos diante de Deus, não importa quando chegaram e nem mesmo de onde vieram, pois a todos, em Cristo, o Pai se apresenta como sendo misericordioso e compassivo, cheio de amor e gratuidade.

        

A compreensão da lógica apresentada na parábola do texto evangélico pode ser auxiliada pela proposta do apóstolo Paulo apresentada na Segunda Leitura, isto é: Viver à altura do Evangelho. Em muitos escritos paulinos, encontra-se a palavra Evangelho, a ponto que, muitos autores e estudiosos chegaram a pensar e propor que ela teria sido inventada pelo próprio apóstolo, visto a quantidade que ele a utiliza. Todavia, mais do que saber se a palavra é de fato dele, faz-se importante reconhecer qual o seu conteúdo, a que ele se refere ao utilizá-la. De fato, ao utilizar a palavra Evangelho, Paulo não se referia aos Evangelhos conhecidos, visto que eles teriam sido, em sua maioria, escritos depois das cartas paulinas. Nesse caso, ele mesmo indica a que se refere ao utilizar a palavra, isto é, o Evangelho tem um conteúdo e esse se refere a Cristo morto pelos pecados e ressuscitado pela salvação da humanidade. Sendo assim, ao afirmar na segunda leitura que: "só uma coisa importa: vivei à altura do Evangelho de Cristo", ele aponta um caminho de seguimento do Senhor para todos os cristãos.

        

O próprio Paulo, na Segunda Leitura, afirma já viver em Cristo, algo que ele repete em muitas de suas cartas, isto é, a sua vida cotidiana foi marcada pela presença, pelos sentimentos e pelas escolhas de Cristo. Desse modo, ao afirmar que somente uma coisa importa, isto é, viver á altura do Evangelho, ele apresenta a si mesmo como modelo aos irmãos e irmãs que desejam seguir o Senhor no caminho do discipulado missionário. Paulo abandonou a lógica das relações distributivas ao abraçar Cristo, ou seja, deixou para traz as glórias que carregava como judeu, cumpridor da Lei e perseguidor dos cristãos, para reconhecer o valor de Cristo e por Ele tudo abandonar. Nessa dinâmica de vida, ele encontrou a gratuidade de Deus, seu amor sem limites e a salvação, foi mergulhado na vida divina e abraçou o seguimento de Cristo até a sua morte. Por isso, viver à altura do Evangelho significa seguir Cristo, deixar-se moldar por Ele, segundo os seus valores e opções. Um chamado que impõe escolher e assumir um novo modo de pensar e agir, por isso, abraçar uma nova lógica nas relações cotidianas. Aquele que deseja viver à altura do Evangelho, não somente segue o Senhor, mas deixa-se transformar por sua Palavra e pela ação do seu Espírito. Reconhece também a necessidade de rever os valores que professa e pelos quais direciona a própria vida, para abraçar os valores verdadeiros do Evangelho. Sendo assim, não compactua com a violência, com a miséria e a exclusão, mas faz da própria vida um sinal de Deus, por meio da partilha, do serviço solidário e do comprometimento na construção de uma sociedade mais fraterna, justa e solidária.

          

Que a Liturgia da Palavra desse Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum provoque nos corações a necessidade de que cada um reveja os seus próprios caminhos. No intuito de que, iluminados pela liturgia da Palavra, desejam abraçar os caminhos do Senhor, que propõe a todos uma nova lógica, baseada no seu amor gratuito e livre. A fim de que, todos se sintam chamados a viver à altura do Evangelho, por meio das atitudes cotidianas, segundo as escolhas de Cristo, à exemplo de Paulo. Capazes de afirmar todos os dias da vida: "Viver para mim é Cristo".

 

Pe. Andherson Franklin Lustoza de Souza

 

 

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