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08.09.2020

DICAS DE HOMILIA - 24º Domingo do Tempo Comum

A Misericórdia de Deus - A compaixão de Cristo - A Exigência do Perdão

 

A Misericórdia de Deus - A compaixão de Cristo - A Exigência do Perdão

 

A Liturgia da Palavra desse Vigésimo Quarto Domingo do Tempo Comum tem como tema central o perdão. Na Primeira Leitura e no Evangelho fica claro que o fundamento do perdão mútuo é a experiência da misericórdia divina pois, perdoados por Deus os homens são chamados a se perdoarem mutuamente. A experiência cristã é movida pela compaixão de Cristo manifestada em seu cuidado com os pobres e pecadores, de maneira especial, por sua atenção em resgatar os que estavam perdidos e lhes oferecer a face amorosa de Deus. Estes dois pontos são cruciais para  que se possa compreender a exigência do perdão na vivência da fé, isto é, tendo recebido de Deus o perdão dos pecados, sendo agraciado pela compaixão de Cristo que a todos alcança, o discípulo é chamado a ter a mesma postura para com todos os irmãos e irmãs.

        

Segundo as Escrituras, a misericórdia humana é imitação da misericórdia de Deus e, muitas das vezes que a expressão aparece, está relacionada diretamente à contextos teológicos tais como: a Aliança, a criação e a história da salvação. Deus é misericordioso (Is 49,10; 54,10), isto é, a misericórdia faz parte de sua natureza mais profunda, manifestada, de modo particular, em sua graça e bondade. Nesse caso, a misericórdia de Deus é anterior e superior à sua cólera e o seu senso de justiça, mesmo diante dos pecados e transgressões de seu povo. Um texto antigo do Talmud (primeira tradução e exegese do Primeiro Testamento), indica que Deus, ao olhar para a humanidade, sentado no trono de seu juízo, o abandona e vai procurar o trono da misericórdia.

        

Deve-se notar ainda que o termo misericórdia, muitas vezes,  significa literalmente comportar-se segundo uma aliança concluída, isto é, uma solidariedade que se deve aos que celebraram uma aliança. Tal compromisso pode ser realizado entre iguais, quando as partes são de igual força e poder, mas também entre diferentes, quando um é mais potente ou possui maiores recursos do que o outro. Neste segundo caso, quando uma das partes é mais fraca e necessitada, a que possui maiores recursos deve garantir que a aliança seja celebrada e respeitada, sendo compreendida assim, como fidelidade à aliança concluída. No caso da misericórdia divina, dado que Deus é infinitamente superior ao povo que escolheu por sua herança, é claro que a ação de Deus na direção do povo é a de fidelidade à aliança concluída, ao mesmo tempo, que é a de misericórdia e compaixão quando o povo, fraco e pecador, perde o rumo e rompe o pacto de Aliança. Por isso, Israel sempre implora a misericórdia e o perdão divinos, parte integrante do pacto de Aliança selado com o Senhor. Neste caso, tanto a ação divina de perdoar e acolher o povo infiel e sofrido pelos pecados e infidelidades, bem como, a atitude do povo em implorar o perdão e a misericórdia divina, estão de acordo com a manutenção do pacto de Aliança selado sobre as bases da misericórdia.

        

Outro elemento fundamental na compreensão do termo misericórdia é o relacional, já que o termo é também utilizado para descrever as atitudes de misericórdia entre os familiares, os amigos, e os indivíduos. Isto é, segundo a Sagrada Escritura, as relações humanas devem também ser marcadas por laços de misericórdia, com o perigo de cair na crueldade com os pobres e pequenos quando a misericórdia é esquecida. Algo retratado de modo claro na Primeira Leitura e no Evangelho proclamado na liturgia desse Domingo. "Perdoa a injustiça cometida por teu próximo; assim, quando orares, teus pecados serão perdoados" (Eclo 28,2) e "É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão” (Mt 18,35). Desse modo, fica claro que a misericórdia possui também um caráter relacional, pois sendo uma experiência religiosa, que toca a vida humana, torna-se também um imperativo ético, isto na necessidade do perdão mútuo.

        

Quando analisamos o termo misericórdia no Segundo Testamento nos deparamos que a mesma tem a sua origem na experiência, descrita acima, feita por Israel do Deus Clemente e Misericordioso, cheio de compaixão e lento para a ira. Do mesmo modo que o termo misericórdia é  central para o Primeiro Testamento, o termo compaixão o é para o Segundo Testamento, particularmente, quando se refere às atitudes de Jesus. Por meio da morte e ressurreição de Cristo, Deus continua a sua ação salvífica, resgatando os homens da morte para a vida, como apresenta Paulo na Segunda Leitura. Neste caso, a fidelidade de Deus à sua aliança se torna clara nas palavras, ações, gestos e opções de Jesus, principalmente em seu cuidado e atenção para com os que mais sofrem, os doentes, pecadores e pobres. Jesus era movido pela compaixão, isto é, era capaz de se colocar ao lado e carregar as dores dos homens e mulheres que encontrava, inclusive dos pecadores e excluídos. Em todos os casos, quando os necessitados e excluídos, os pobres e pecadores se aproximam de Jesus, vemos nas expressões por eles utilizadas e em seus pedidos, que se torna presente a compreensão, por parte destes, de que Jesus é o portador da compaixão e da clemência divina. Todas as ações de Jesus, as curas, os milagres, a acolhida dos pecadores e as expulsões dos demônios são a manifestação de sua compaixão para com os que sofrem. Desse modo, fica claro de que Jesus é o rosto da misericórdia do Pai: "Quem me vê, vê o Pai", disse Ele a Felipe. Sendo Jesus o rosto misericordioso do Pai, os seus discípulos são convidados a participarem dessa comunhão profunda entre Ele e o Pai, agindo também com misericórdia e compaixão uns com os outros.

        

A grande questão que o texto do Evangelho de Mateus, proclamado na Liturgia da Palavra do Domingo traz, é se existe um limite para o perdão, isto é, quantas vezes deve-se perdoar? Os rabinos afirmavam, em sua postura de vida, que se deveria perdoar até três ou quatro vezes; Pedro, ao propor a questão, eleva esse limite até sete vezes e se dirige ao Senhor. Jesus ao responder a pergunta sobre quantas vezes se deveria perdoar ao irmão, retoma um texto do livro de Gênesis que retrata a crescente violência dos descendentes de Caim. O cântico afirma que Lamec matou duas pessoas por banalidades e traz a figura de Caim que matou o seu irmão Abel. No caso de Caim, quem o matasse seria vingado sete vezes; já no caso de Lamec seria vingado setenta e sete vezes, isto é, uma vingança sem limites. Ao responder à pergunta de Pedro, partindo da vingança ilimitada que estava sobre Lamec, Jesus inverte a sua lógica e apresenta o perdão em sua forma ilimitada. Seu discurso continua e, ao apresentar essa nova forma de compreender o perdão, ele indica, com uma parábola, de que forma essa maneira de perdoar deve ser entendida.

        

A parábola é muito bem construída e dividida em três partes:          

 

A primeira cena é apresentada e tem como personagens o devedor e o rei (vv. 23-27). A soma da dívida era impagável, por isso a venda da família e de todos os bens fazia-se necessária. Todavia, a palavra compaixão ocupa o lugar central no discurso. Esta palavra, quando utilizada no hebraico, pode ser traduzida como as entranhas e vísceras do homem e, principalmente, como ventre materno − lugar dos afetos e dos sentimentos, lugar do amor compassivo; não somente um sentimento de amor, mas uma atitude concreta e real do mesmo. Neste caso, o perdão ganha um valor que vai além de um compromisso de revisão do caminho daquele que é perdoado e ganha um caráter de gratuidade. A palavra compaixão ganha lugar de destaque, o que significa que o perdão é um compromisso da comunidade e um caminho a ser percorrido.

 

A segunda cena traz o devedor perdoado e alguém a quem ele não perdoa (vv. 28-30). Mesmo tendo recebido o perdão de sua dívida, ele ainda não aprende a lição, não é capaz de reproduzir na vida a lição de gratuidade daquele que lhe perdoou o que devia. A soma que o seu colega o devia era infinitamente inferior à que foi perdoada pelo seu patrão, ressaltando assim a desproporção de sua atitude diante do perdão apenas recebido. Esta cena introduz a última, que concluirá a perícope e todo o capítulo.

 

A terceira cena traz novamente o devedor perdoado diante do rei (vv. 31-34). A indignação do rei com o fato de o devedor não ter compreendido a lição e não ter sido capaz de mudar suas atitudes é um sinal para a comunidade. Na escola da comunhão e da fé, os discípulos devem aprender com os gestos de Cristo e crescerem no perdão, que é fruto do amor gratuito de Deus. A compaixão de Cristo deve ser o ponto de partida para que todos os discípulos se tornem compassivos como Ele o foi. No versículo 27 encontramos a chave para o perdão, que é a compaixão. O patrão não o julga segundo critérios judiciários, mas sim, pela falta da codivisão da misericórdia que tinha recebido. Ele não foi capaz de ter piedade do irmão, da mesma forma como a recebeu de seu patrão. Para Mateus, o perdão não é sentimento, mas compromisso de fé, algo que identifica uma comunidade de discípulos. A aplicação conclusiva de tudo o que foi apresentado na parábola se encontra em Mt 18,35, quando é diretamente aplicado à vida da comunidade. Todos na comunidade são devedores absolvidos de uma culpa impagável, mas que pela misericórdia de Deus já não existe mais. Por isso, a chamada de atenção do evangelista na direção do perdão recíproco, como uma exigência que deve estar no coração da comunidade e deve fazer parte da vida de seus membros. 

 

Que a Liturgia da Palavra desse Vigésimo Quarto Domingo do Tempo Comum faça brotar em todos a certeza de serem alvos da misericórdia e compaixão divinas. De modo que a vivência da fé, na Comunidade dos discípulos missionários, seja marcada por laços de fraternidade e perdão, que nascem na gratuidade do amor divino recebido. Que todos sejam provocados a reverem suas relações interpessoais e se comprometerem, de todo o coração, com a exigência do perdão mútuo, que é um fruto essencial da experiência de fé.

 

Pe. Andherson Franklin Lustoza de Souza

 

 

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