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PAI DA MISERICÓRDIA

Por Seminarista Paulo Junior Camilette

 

 

Nos vemos divididos, perdidos, muitas vezes sentimo-nos mesmo desgraçados. No encontro do Pai das misericórdias com seus dois filhos podemos nos reconhecer, estarmos diante de nossas dores, nossos sofrimentos. Não podemos cair em um romantismo ou ingenuidade na percepção das atitudes do filho mais novo, ele pecou, preferiu abrir mão da sua relação com o Pai. Relação que lhe garantia a vida, que lhe mantinha vivo e aberto à vida, quis se satisfazer segundo seus preceitos. Porém, o filho mais velho não pode ser tomado apenas como o filho “certinho” que foi injustiçado pelo Pai, suas atitudes também nos revelam suas faltas.

 

Há, devido o retorno, entre o Pai e o filho mais novo um ritual, uma celebração. O Pai o toma do esquecimento, de sua própria desgraça, o faz homem, celebra, faz festa, oferta o sofrimento do filho e a partir dele faz vida nova. Responde para aquele filho, no nível concreto, do que é real, não só com palavras, mas com seus atos, as inquietações que ele trazia. Inquietações que o levam a dizer: ‘Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho’ (Lc 15, 21). Seus atos o transformaram em menos que gente, o colocam na altura do impuro, daquilo que não é aceito, que é rejeitado, no entanto, não há dúvidas, nem exitação no Pai, Ele quer fazer do rapaz gente de novo, o faz filhop.

 

Com quanta esperança temos lidado com a vida de quem temos encontrado? A celebração que não me compromete com a minha vida, com a vida da comunidade, com a vida do outro, me faz um supersticioso, pois aquele momento torna-se uma ritualística de palavras, de imagens, um show de encantamentos, mas que no meu dia a dia não muda nada. Quantas pessoas têm vivido ritualisticamente sem os rituais da vida? Sem ofertar o seu cotidiano nos altares de Deus? Sem sentir que são tornadas pessoas novamente?

 

Como nos aproximarmos dos esquemas de misericórdia de Cristo? Somos ágeis em prever o que está à nossa frente. Lutamos por nossos direitos, não aceitamos que as pessoas nos passem para trás. Não gostamos de nos sentir enganados, usados, deixados de lado. Não nos sentimos bem ao ver o filho mais velho ser “injustiçado”. Nós também nos sentimos injustiçados, estamos o tempo todo com Deus para sermos recompensados dessa forma? Como podemos aceitar que alguém que veio depois ou que abriu mão d’Ele seja recebido como nós?

 

Quanto ao seu filho mais velho, herdeiro de sua casa, de seus bens, administrador da casa do Pai, poderíamos pensar que ele era o verdadeiro merecedor do reconhecimento. Todavia, o reflexo do Pai precisa provocá-lo a fazê-lo perceber o que perdeu até aquele momento. Sua postura não é diferente da do filho que abandona a casa paterna, sua mesquinharia lhe fechou em si mesmo, lhe roubou a possibilidade de viver a misericórdia do seu Pai. Viveu até aquele momento como administrador da casa do Pai, mas não se sentiu família, não percebeu o lugar que ocupa, não fez festa por compartilhar com o Pai o mesmo destino, não compreendeu que a felicidade já estava posta sobre a mesa todos os dias, que o Pai se alegrava com Ele, que fazia festa.

 

Porém, seu "justicismo", se me permitem o neologismo, sua busca por uma justiça forçada, só lhe fez perceber a festa pelos olhos da inveja, até aquele momento ele estava fechado à celebração de sua vida junto ao seu Pai. É como se o Pai precisasse dizer: “Meu filho, todos os dias eu festejo com você, minha mesa se alegra com sua presença, porém, é você que não se alegra com a maneira como eu vivo a minha vida, como distribuo os meus bens, como trato as pessoas. Ficou tão fechado no rito da administração que abriu mão do rito da vida”.

 

Temos em nossos corações esquemas definidos para a misericórdia, para o ser Deus, para a maneira como devemos exercer nossa fé cristã. O Deus que não cabe nesse esquema deve ser jogado fora, pois a conversão interna da Igreja não tem sentido, se estamos lá dentro é por já sermos convertidos. Como escolhidos já fizemos nosso processo de conversão. Nisso, infelizmente, estamos nos tornando uma Igreja morta, sem festa, sem vida, uma igreja de supersticiosos, não mais a Igreja do Povo de Deus que caminha pelo mundo, que faz deste espaço de vivência um lugar melhor.

 

Estar diante da parábola do Pai Misericordioso me faz lembrar da oração do ofício das leituras de quinta-feira. Santo Hilário, homem do século IV, nos lembra que não existe essa história de apenas uma maneira da misericórdia de Deus nos encontrar, muito menos essa história não tão nova, que cheira a heresia, que só há uma maneira de ser católico, de viver o evangelho, de ser igreja, de ser gente, de estar no mundo. Um homem de 1600 anos atrás percebeu, nossa ignorância e arrogância nos faz fechar os olhos para essa realidade.

 

Ora, os caminhos do Senhor são muitos, embora ele próprio seja o Caminho. Pois, ele chama-se a si mesmo caminho, e mostra a razão porque fala assim: Ninguém vai ao Pai senão por mim (Jo 14,6). Devemos, portanto, examinar e avaliar muitos caminhos, para encontrarmos, por entre os ensinamentos de muitos, o único caminho certo, o único que nos conduz à vida eterna. Há caminhos na Lei, caminhos nos profetas, caminhos nos   evangelhos e nos apóstolos, caminhos nas diversas obras dos mestres. Felizes os que andam por eles, movidos pelo temor do Senhor.[1]

 

[1] POITIERS, Hilário de. Dos Tratados sobre os Salmos (Ps 127,1-3:CSEL 24,628-630). In:  LITURGIA DAS HORAS. v. II. Petrópolis: Vozes. São Paulo: Paulinas/Paulus/Ave Maria, 1999. p.

 

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