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VIDA VIRTUOSA NO CONTEXTO ATUAL: É POSSÍVEL CONSTRUÍ-LA?

Por Pe. Antônio Tatagiba Vimercat

 

 

BREVE HISTÓRICO DO TERMO VIRTUDE

           

Esta questão, certamente, sempre foi e ainda continua sendo muito importante para a humanidade. Inicio lembrando que dos esquemas mais utilizados para expor o conteúdo ético foi o das virtudes. O livro de moral mais importante na Antiguidade, a Ética a Nicômaco, e o livro de moral mais importante da Idade Média, a segunda parte da Summa Theologica, constituem sistemas de virtudes. As virtudes, segundo Santo Tomás, são a Prudência, Justiça, Fortaleza e a Temperança. E se desdobram em quarenta e três.

           

Aprofundando um pouco mais na história do termo vemos que na linguagem ética e religiosa, virtude indica ou os bens que as pessoas justas e retas perseguem, ou as prerrogativas de que se acham dotadas, ou as qualidades em virtude das quais realizam o bem. É preferencialmente esta última a acepção que aqui se analisa.

           

A história do termo é muito complexa. A virtude para os gregos é a areté, o qualificativo das pessoas cultivada retamente. O equivalente latino de areté é virtus, que, por exemplo em Cícero (106-43 a.C.) conota simultaneamente maturidade e força: vir e vis: a pessoa madura e forte é a que é plenamente ela mesma e goza de prerrogativas necessárias para realizar seus próprios deveres civis e humanos, apesar dos obstáculos e das dificuldades.

           

É de grande interesse a reconstituição da evolução e da elaboração deste conceito; elas manifestam o caminho percorrido pelo pensamento humano para chegar a uma visão orgânica do processo mediante o qual o ser humano tende para a sua perfeição.

           

Na tradição bíblica se encontram abundantemente todos os elementos que integram o conceito de virtude. No entanto, o termo como tal se acha quase ausente. No Novo Testamento só se encontra em Fl 4,8; 2Pd 1,5; 1Pd 2,9. O termo mais afim é dynamis, traduzido também, não por acaso, em  latim, por virtus.

           

A situação muda com os Padres gregos e latinos. Estes usam o termo em acepção muito variada. Denominam virtude os frutos do Espírito, as obras belas e boas dos crentes. Na linha de uma tradição já atestada por Fílon (20 a.C. - 50 d. C.), que considerava estas prerrogativas como dotes plantados e aperfeiçoados na alma pelo poder de Deus, começam a dar à virtude importante realce em seu ensinamento relativo ao progresso no bem e à luta contra os vícios e as paixões.

           

A introdução do termo na tradição teológica foi também lenta. As definições mais comuns naquele tempo foram a já citada, de origem aristotélica:"Virtude é o que torna bom quem a possui e boa a obra que realiza", e outra, inspirada em Agostinho, é conhecida na formulação que teve nas Sentenças de Pedro Lombardo: "A virtude é uma boa qualidade da mente, pela qual se vive retamente, que ninguém usa mal, que Deus opera em nós sem nós".

           

O alcance e o valor destas descrições variam segundo a concepção teológica e antropológica dos autores que a adotam em sua síntese. Tomás de Aquino trata da virtude em diversos contextos. É o tema de uma "quaestio disputata": De Virtutibus in communi; dela fala no comentário sobre o livro II das Sentenças (II 5., d.27, a.1; III 5., 23,q.1). Entretanto é na S. Th., I-II (qq. 55-70) e na II-II (qq. 1-170) que expõe de modo mais completo sua visão sobre o organismo virtuoso.

           

Conforme foi progredindo a reflexão teológica o termo virtude e hábito foram adquirindo uma qualificação cada vez mais específica, técnica, variada e rica. Diz-se, por exemplo, que todas as virtudes são hábitos, porém, nem todos os hábitos são virtudes. A graça é considerada habitus entitativo, distinto dos operantes das virtudes, mas não é chamada virtude.    

           

As virtudes intelectuais são virtudes, embora em si mesmas não expressem relação com o bem moral. No campo oposto, os vícios são hábitos que corrompem, não constituem o sujeito.

           

Trata-se, pois, de termos análogos, que nos diversos casos assumem conotação específica que contextualiza seu alcance e que, em conjunto, evidenciam a rica densidade destas prerrogativas do espírito humano.

 

Em vernáculo, os termos que expressam estas realidades são costume, hábito e virtude; os dois primeiros, mais do que traduzirem, descobrem sua prenhe riqueza. A única afinidade entre costume e hábito é constituída pela referência à constância e à estabilidade implícitas nos dois termos. O costume, porém, situa-se na linha do instinto, da repetição, da não-voluntariedade; em contra-partida o hábito demonstra essencialmente domínio de si e dos dinamismos próprios, capacidade de ação responsável, humana e humanizadora; liberdade libertada na orientação para o bem, no assentimento a ele, em estar nas próprias mãos de modo que se realizem suas exigências. 

           

O ORGANISMO VIRTUOSO 

           

A virtude está ordenada ao agir. Um dos dados mais importantes na teoria da virtude é o que a considera ordenada ao agir bem: é princípio de atos humanos bons, torna bom o que opera e as obras que realiza. É dado complexo e faz-se mister esclarecê-lo.

           

O agir de que se trata, antes do transitivo (facere), mediante o qual a pessoa transforma e aperfeiçoa a realidade, e o agere em que ela se realiza em relação ao bem com todas as suas faculdades e possibilidades; qualifica-se na prerrogativa de princípio verdadeiro, embora não primeiro nem único, da própria orientação existencial.

           

A pessoa, como imagem de Deus, está estruturada para ser em ato ela mesma. "Sendo a substância de Deus sua ação, a suma semelhança do ser humano com Deus realiza-se segundo o operar, o agir. E, por isso, se diz que a felicidade ou bem aventurança, em que o ser humano se conforma a Deus de modo supremo, e que constitui a finalidade da vida humana, consiste em operação" (Santo Tomás, S. Th., I-II, q. 55, a. 2, ad 3).

             

A virtude pertence ao gênero da qualidade; realiza a pessoa de acordo com sua própria vocação pessoal; confere-lhe domínio de si, sintonia com o bem, capacidade para viver relações inteligentes e livres na humanidade, com Deus, para promover a perfeição do universo.

           

O agere realiza a pessoa mediante a transformação que nela se opera pelo fato de ratificar a pertença à condição humana; deixa-se amar, habitar, transformar pelo bem supremo, ao qual dá assentimento, recebe a vitalidade de quem a atrai e a fundamenta em sua condição no contexto das relações que configuram sua presença na realidade.

           

Assentir livremente ao bem equivale a querer orientar a própria vida em conformidade com suas exigências. A ação boa não é uma atividade qualquer , é fundamentalmente comunhão de conhecimento e de amor com o bem supremo, tal como o agente o conhece e o acolhe. A ação moral não é adesão a um sistema de pensamento nem a aquisição de uma técnica; é gravitar pessoalmente no mundo de Deus, deixar-se conformar a ele, secundar sua moção, crescer na disponibilidade da escuta, na decisão de orientar a própria vida segundo as indicações que aceita dele. Esta atitude complexa qualifica o agente e as obras que realiza em coerência com sua condição.

           

Quando a pessoa segue este enunciado de vida, adquire estabilidade e rigor, e os atos que realiza, mais do que em momentos marcantes, se convertem em expressão de relação, em estilo de comunhão, em tendência à verdade e ao bem. Os dinamismos mediante os quais se qualifica a capacidade de agir bem têm valor e estrutura próprios e se distinguem de acordo com as metas que os especificam. As relações amistosas, de confiança, de justiça, de gratidão e de respeito são, todas elas, humanas e diferem de modo inequívoco umas das outras. Esta orientação para o bem é permanente; perdura também quando a pessoa, como, por exemplo, no sono, não realiza concretamente suas exigências. Operar em ato não é o único momento humanizante. São tantos, outrossim, os parênteses de silêncio; as fases em que a pessoa vive a gestão de uma disponibilidade mais intensa para o bem. Este silêncio vigilante não deve ser confundido com a rejeição e a omissão da atividade, indício de indiferença, tibieza (Ap 3, 16) e falta de vitalidade (Jo 15, 2-6) que caracterizam aqueles que, embora sem abdicar de todo às próprias responsabilidades, deixam de atender de fato às suas exigências.  

                      

EDUCAR-SE NA VIRTUDE: SER VIRTUOSO

        

A virtude, conforme conhecida definição de inspiração agostiniana, é ordo amoris, é consentimento em ser pedras vivas (IPd, 2,4) na construção que em Cristo cresce bem ordenada (Ef 2, 21). Só quem ama faz bem o que faz, e ama deveras quem está vitalmente inserido na realidade e fortalece de modo harmonioso seu desenvolvimento.  Amar e amar-se; é capacitar-se para viver junto com os outros dentro da ordem; e vencer as resistências que impedem avançar para o éskaton e antecipá-lo no tempo. Amar é prerrogativa pessoal, não anônima; personalizadora, não massificante ou amorfa; dinâmica, não monótona e repetitiva. É habilitar-se para perseguir iniciativas com gratuidade e responsabilidade; é tornar-se capaz de libertar atividade inventiva no concreto da história. 

           

Assentir a esta condição leva a querer que a inteligência se enraíze na verdade, a contemple, se deixe orientar por ela; que a afetividade concorde com o bem conhecido e o assuma na operação quotidiana em verdade e fidelidade; que a pessoa se abra a Deus no povo que ele reconcilia consigo.

             

Atribuir à virtude a tarefa de atualizar e harmonizar este dinamismo significa tomar em consideração a diversidade de talentos de cada um (Mt 25, 15ss); das situações em que as pessoas se encontram, da possibilidade que têm de não trapacear consigo mesmas e de não reduzir arbitrariamente as próprias responsabilidades. A virtude é liberdade liberada, e não distribuidora automática de comportamentos.

           

A virtude une estes diversos aspectos; é a convergência dos dinamismos da pessoa na adesão ao bem no concreto das situações. É algo muito diferente de um caminho para o êxito. É a docilidade à verdade, ao ainda não que manifesta suas exigências conforme é secundado; encarna e irradia obediência ao Criador e fidelidade à condição final da história; é iniciação na glória, aprendizagem do definitivo, súplica de vida no eterno, em Deus. O dinamismo virtuoso tem orientação centrípeta; contrasta com a dispersão, descuida-se dos processos fusionais e inspira o bem humano em atitude justa diante de Deus e que se qualifica mediante os acontecimentos da vida, se nutre de admiração, louvor e silêncio; leva a contrariar as tendências ao cálculo e à segurança. Tudo isto coloca a pessoa em estado de aceitação, docilidade e de responsabilidade.

           

Para viver estas prerrogativas não é necessário conhecer especificamente todos e cada um dos aspectos do dinamismo humano; é indispensável saber em quem confiamos; cultivar em si a confiança em Deus para ser, agir e viver junto com os outros; querer superar as autodefesas e as suspeitas que levam a autogarantir-se, a fortificar-se nas próprias auto-suficiências e em formas de fatalismo irresponsável que impedem crescer na disponibilidade afetiva para fazer que o bem seja realizado, participado, saboreado junto com os outros, de modo que todos possam experimentar o gozo de viver e desfrutar das condições que tornam a vida digna de ser vivida.

           

O problema humano é histórico e cultural. As pessoas estão na história, não são realidade a que uma história tenha acesso; a historicidade estrutura e condiciona sua presença no tempo; a responsabilidade da história da família humana qualifica a atitude de toda pessoa reta. Quem persevera neste caminho amadurece a consciência dos valores destrutivos que agem no tempo e cultiva a esperança da libertação e a confiança na misericórdia que salva e renova a realidade.

           

A virtude alimenta a disponibilidade efetiva para aceitar a carga do negativo da história, para não sofrer por causa dele e dele não se esquivar, e para promover a transformação no âmbito do projeto de vida, que é tanto mais verdadeiro quanto melhor assume as diversas dimensões da verdade humana. Esta compreende a capacitação para salvaguardar a consciência da realidade (perspectiva cosmológica); para assegurar o viver associado e promover seu desenvolvimento (aspecto político); a realização da própria humanidade na variedade de suas prerrogativas (aspecto pessoal); a disponibilidade para assumir a historicidade da realidade a fim de ser e crescer na história da salvação (aspecto histórico-salvífico).

           

Estas dimensões devem coexistir e convergir para corresponder ao plano de Deus, que reconcilia o mundo consigo conforme desígnio que se verifica na história e que simultaneamente diz respeito à comunidade humana, à criação e ao tempo.

             

As pessoas se tornam existencialmente conscientes do fato de que o bem não é representação subjetiva; é a fidelidade à própria vocação na comunidade das pessoas que interagem no mundo e que sobretudo vivem em Deus, do provém a humanidade e para o qual ela tende. Ninguém pode viver esta gama de relações sem representá-las para si de alguma maneira; mas ninguém as vive bem quando a representação com a realidade. O conhecimento da verdade acompanha todas as fases do caminho reto. É autêntico quando as pessoas se reconhecem como pertencentes à mesma humanidade e consentem em amar-se e em compartilhar a presença no tempo, a responsabilidade pela criação e vivem em Deus. As virtudes não são teóricas; são fruto e contexto de relações autênticas. Descrevê-las é narrar deque modo vivem as pessoas que no tempo cultivam suas prerrogativas e se deixam guiar pelo Espírito de Verdade, que converte os corações humanos e os leva a se manterem em suas mãos, a plasmarem e orientarem os próprios dinamismos, a superarem as manias depressivas ou as veleidades anárquicas ou de onipotência, a atuarem na realidade e a se abandonarem a Deus. Tudo isto exige harmonia entre conhecimento de si, da realidade e das situações; educação da afetividade, das próprias inclinações e tendências; decisão e realização das atitudes que estruturam o quotidiano.

           

Levar isto a cabo significa saber o que fazer, como fazê-lo, querer fazê-lo, perseverar em fazê-lo, fazê-lo concretamente, dia após dia, sem deixar bloquear ou paralisar pelas dificuldades que, com metódica monotonia, dificultam o caminho. A perseverança no bem exige que a inteligência, a afetividade e a disposição para executá-lo convirjam; que a pessoa explicite o estilo de fidelidade a que deseja dar seu consentimento e que o assuma como parâmetro mediante o qual retifica o caminho.

           

Domínio de si, constância, continuidade, prontidão, perfeição do agir e júbilo são características das pessoas que valorizam o ainda não de sua potencialidade; distinguem a capacidade de amar das falsificações e de suas realizações imperfeitas; são conscientes das repressões, das defesas e dos medos que tornam as pessoas escravas de si e impedem que elas queiram ser e se sintam solidárias, compartilhando, na justiça e na amizade, as metas comuns. Esta perspectiva é para todos chamado, convite, e deve tornar-se estilo e projeto de vida.

           

O estudioso discursa sobre as virtudes, o virtuoso ama e, atraído pelo amor, trabalha em si para  chegar a ser o que a vocação lhe permite ser no compromisso com a gestão da realidade. A solicitude da pessoa virtuosa se orienta para a comunhão; está projetada para viver comportamentos inspirados no amor, na justiça e na verdade: como neste campo o erro não é abstrato nem ilusório, as pessoas justas estão sempre vigilantes para discernir as expressões autênticas da existência reta.

           

A vida virtuosa não é atitude intermitente ou improvisada; é modo de existir na liberdade; é orientação tendencialmente estável e fiel. Isto não significa que as pessoas virtuosas sejam impecáveis; no entanto, a experiência da imperfeição e do limite não as induz a se legitimarem, a serem indulgentes consigo mesmas e severas com os outros; a tolerarem sua própria miséria; sofrem por causa dela, impedem suas manifestações e vigiam para que ela não aumente seu domínio.

 

A perfectibilidade humana é fruto da doação de Deus, que em Jesus Cristo e no Espírito chama a promover comunidades onde se vivam as relações interpessoais não sob o signo da suspeita, e onde o compromisso com uma sociedade mais justa faça que os excluídos e os marginalizados possam chegar a ser eles mesmos e a desfrutar de condições humanas de existência.

 

A virtude é problema pessoal e comunitário; diz respeito às pessoas em seus comportamentos e as enraíza na família humana e na comunidade de salvação; apresenta-se de modo autêntico quando é, em todos, vontade de viverem juntos, diferentes, respeitando a condição específica de cada um e na co-responsabilidade pela comunidade de todos.

 

Considerar as virtudes prerrogativas de pessoas isoladas e não, como são efetivamente, expressão do vínculo que une os que gravitam em torno da comunidade e dos que nela vivem e dela formam parte, constitui um dos maiores obstáculos para a sua afirmação. A docilidade efetiva para moderar-se, para ser forte a fim de não tolerar e eliminar os obstáculos que impedem o crescimento na justiça e na paz, é medida inequívoca da maturidade humana, e estilo de vida virtuosa e comprometida.

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