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FRANCISCO DISSE ISSO?

Por Pe. Juliano Ribeiro Almeida

 

 

A polarização burra que estamos vivenciando na política brasileira – coxinhas versus petralhas, direita versus esquerda – parece que contaminou também as relações no interno da Igreja católica. De um lado, ultraconservadores atacam o Papa Francisco chamando-o de esquerdista e herege; de outro lado, progressistas exagerados colocam na boca do Romano Pontífice muitas sentenças que ele não disse e nem tem o poder de dizer. O exemplo mais visível, no momento, é a situação dolorosa dos católicos que se divorciaram e se casaram novamente no civil.

 

Na exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia – “A alegria do amor” –, o Papa trata mais detalhadamente deste assunto nos números de 298 a 312, além de mencioná-lo em outros trechos. Antes de tudo, é preciso entender que Amoris Laetitia não é um documento legislativo e nem dogmático. Portanto, o Sumo Pontífice não está mudando em nada a doutrina católica sobre a indissolubilidade do matrimônio e a pecaminosidade do adultério. Se ele tentasse fazê-lo, teria que ser deposto do papado, pois a primeira missão do Papa é “guardar o depósito da fé” (cf. 1Tm 6,20; 2Tm 4,7). O próprio Francisco assegura isso, dizendo que “não se deve esperar [...] uma nova normativa”; e que é preciso “evitar o grave risco de mensagens equivocadas”, que levem a se pensar “que a Igreja sustente uma moral dupla” (n. 300), ou que “pretenda diminuir as exigências do Evangelho” (n. 301), “para evitar qualquer interpretação tendenciosa” (n. 307). Assim sendo, quem quer que esteja dizendo que “agora os recasados podem comungar pois o papa autorizou” está mentindo gravemente e causando confusão. O que o papa está dizendo é outra coisa bem diferente!

 

Ao longo do texto, Francisco refere-se 44 vezes a discernimento, que é um conceito chave da exortação. Discernir é distinguir, separar uma coisa da outra, ir além da regra geral, procurando aplicá-la caso por caso. O Santo Padre afirma: “Uma coisa é uma segunda união consolidada no tempo, com novos filhos, com fidelidade comprovada, dedicação generosa, compromisso cristão, consciência da irregularidade da sua situação e grande dificuldade para voltar atrás sem sentir, em consciência, que se cairia em novas culpas. [...] Coisa diferente, porém, é uma nova união que vem dum divórcio recente, com todas as consequências de sofrimento e confusão que afetam os filhos e famílias inteiras, ou a situação de alguém que faltou repetidamente aos seus compromissos familiares” (n. 298). No discernimento que o sacerdote deve fazer juntamente com o casal, cada situação é diferente da outra e terá um encaminhamento específico. O que não se pode, em hipótese alguma, é criar uma nova regra que valha para todos os recasados indistintamente, na onda do “liberou geral”.

 

O discernimento para se saber a situação de um determinado casal de segunda união na Igreja deve ser um processo longo, não apressado. É necessário que tal casal: 1º) aceite que está numa situação irregular diante da doutrina do matrimônio (cf. Mt 19,6) e tenha espírito de penitência; 2º) aplique, no discernimento feito com o sacerdote, sua própria responsabilidade e sua consciência (cf. n. 303) iluminada pela palavra de Deus; 3º) compreenda que não necessariamente ouvirá do sacerdote “uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberá uma luz que lhes permita [...] descobrir um caminho de amadurecimento pessoal” (n. 312). Enfim, na abordagem pastoral aos recasados, há que se evitar a lógica do “tudo ou nada”, ou seja, a ideia equivocada de que receber a comunhão eucarística seja a única forma de ser acolhido e participar ativamente na Igreja. Aliás, São Paulo alerta os cristãos de Corinto: “cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice” (1Cor 11,28); e é evidente que esse critério vale para todas as situações de pecado, não apenas para irregularidade conjugal.

 

Bento XVI muito bem intitulou sua última encíclica Caritas in Veritate – “a caridade na verdade”. Segundo ele, “sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. [...] A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo” (n. 3). Portanto, no processo de discernimento com recasados, os pastores da Igreja devem procurar ser caridosos sem, contudo, prejudicar a verdade da fé; e, por outro lado, fazer com que a verdade não apenas seja “agradável” momentaneamente, mas liberte as pessoas e as conduza verdadeiramente à salvação. 

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