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O QUE FRUIR E O QUE USAR

Por Pe. Juliano Ribeiro Almeida

 

 

Santo Agostinho (354-430), bispo do norte da África, desenvolveu uma distinção muito importante entre frui (gozar) e uti (usar). Na obra De doctrina christiana, Agostinho afirma: “Entre as coisas, há algumas para serem fruídas (gozadas), outras para serem utilizadas [...]. As que são objeto de fruição fazem-nos felizes. As de utilização ajudam-nos a tender à felicidade e servem de apoio para chegarmos às que nos tornam felizes e nos permitem aderir melhor a elas” (Livro I, capítulo 3). Todo o sistema ético agostiniano organiza-se em torno desta diferenciação entre fruir e usar. Ele diz: “Fruir é aderir a alguma coisa por amor a ela própria. E usar é orientar o objeto de que se faz uso para obter o objeto ao qual se ama, caso tal objeto mereça ser amado” (Livro I, capítulo 4). Para Agostinho, portanto, somente Deus deve ser objeto de fruição (gozo, prazer, deleite), já que só Deus satisfaz plena e eternamente o coração humano. As criaturas todas, por outro lado, devem ser usadas em vista de se gozar Deus; o que quer dizer que as coisas só podem ser amadas como meios para se alcançar o fim que é Deus.

 

O teólogo protestante Wolfhart Pannenberg explica que “enquanto devemos usar as coisas transitórias como meio – pois apenas assim conseguiremos o fim imperecível –, o pecado inverte tal relação e utiliza Deus como meio para encontrar satisfação no dinheiro” (Antropologia in prospettiva teologica, Queriniana, 1987, p. 97). É exatamente isso que Jesus de Nazaré quis dizer com o “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13). Chegamos, assim, ao tema da controversa “teologia da prosperidade”, exibida à exaustão, a qualquer hora, em programas evangelísticos de rádio e televisão. Embora se apresente com a aparência e a linguagem de conteúdo cristão evangélico, o discurso da teologia da prosperidade é, na verdade, pagão e anticristão. Tais pregadores, depois de utilizar textos deturpados do Antigo Testamento, apresentam relatos de pessoas que alegam terem estado desempregados ou endividados até que começaram a frequentar tais cultos e, a partir de quando começaram a entregar ali o dízimo, passaram a “prosperar”, tiveram dívidas milagrosamente pagas, receberam propostas paradisíacas de emprego etc. Supostas curas físicas também endossam os chamados “testemunhos”, que sempre têm o objetivo de dar legitimidade ao pregador e à instituição. A fórmula é simples e, pelo jeito, funciona: se você quer resolver seus problemas financeiros ou encontrar curas e solução de problemas, “converta-se” a esta instituição (não àquela igreja concorrente similar, onde quem atua é o diabo e não Deus!).

 

Fica claro que essas seitas funcionam como verdadeiras empresas. Todos sabem que são entidades com fins lucrativos. Oferecem um produto ao fiel: a coisa material que é o fim que estão buscando (dinheiro ou saúde). O meio para se alcançar esse fim é Deus. Eis a objetiva perversão do cristianismo, a troca do fim pelos meios. Incentiva-se a fruição dos bens terrenos às custas da utilização dos bens divinos.

 

Não há, nessas entidades, qualquer filantropia, formação humanística ou cultivo de valores éticos. O que há é puramente a lógica mercadológica. Porém, tais entidades gozam de isenção de impostos e de todos os mesmos direitos e prestígios que as verdadeiras e tradicionais igrejas cristãs. Não existe qualquer parâmetro de formação filosófico-teológica para os líderes dessas seitas. Eles se dão os mesmos títulos clássicos de “pastor”, “bispo”, “apóstolo”. Enfim, perante as leis brasileiras atuais, o marqueteiro da prosperidade, a irmã Dulce e o pastor Martin Luther King Jr. são todos “farinha do mesmo saco”. Lamentável! Há que se distinguir urgentemente o trigo do joio, sem prejuízo aos direitos humanos de liberdades religiosa e de culto.

 

 

* Padre Juliano Ribeiro Almeida é presbítero católico da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim e doutorando em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte.

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